De Volta a Mocambique

Mais uma vez decidi voltar a Mocambique. Ja estive la 2 vezes participando de operacoes missionarias com as lgrejas Batistas patrocinadas pela Juventude Batista Mineira, agora, foi minha terceira oportunidade de voltar a Mocambique. Fui para ver como o pais tem se desenvolvido, fui para descobrir uma nova Mocambique, uma nova face de Mocambique. Consegui ver tudo isso e confesso que gostei, estou mais apaixonado por Mocambique, seu povo e sua natureza.

Mocambique tem uma longa, colorida e, algumas vezes, turbulenta historia desde que o explorador Portugues Pedro da Covilha ancorou na atual cidade da Beira em 1487. Mocambique foi o unico pais da parte leste da Africa colonizado por portugueses. 0 nome Mocambique e aparentemente derivado do nome de um dos primeiros mercadores arabes, Sultao Mussa Ben Mbiki. Enquanto os portugueses podem ter sido os primeiros europeus a chegar nesta parte leste da costa africana, os arabes tem feito comercio com as tribos nativas desde o ano 600 d.C. Isso explica um pouco a presenca de Mesquitas por todo o pais.

Mocambique se tornou independente de Portugal em 1975 apos uma guerra contra os portugueses que eram nao somente colonizadores mas muito mais exploradores do povo e das riquezas do pais. Tive oportunidade de ver algumas fotos antigas do periodo colonial e fiquei realmente escandalizado com a maneira com que o povo mocambicano era tratado. 0 povo mocambicano ainda tem um longo caminho a percorrer ate perder o sentimento de baixa estima que o acompanha, muitos deles ainda tem esse sentimento proveniente do tempo em que Portugal fazia do povo da colonia verdadeiros escravos em sua propria terra. Com a independencia veio a possibilidade de novos ideiais. 0 processo de independencia foi doloroso. 0 governo, naquele tempo comunista, decidiu que todos os estrangeiros (portugueses principalmente, mas a lei se estendia a todos os estrangeiros) deveriam deixar o pais em 24 horas. Foi alguma coisa realmente dramatica. Os estangeiros fugiram para onde foi possivel, muitos para a Africa do Sul e Suazilandia, paises vizinhos que hoje tem uma grande populacao de portugueses. E curioso notar que nesse tempo havia missionariso brasileiros em Mocambique, todos tiveram que deixar o pais, com execessao de uma missionaria que estava bem envolvida com o povo: Valnice Milhomes Coelho, que naquele tempo era missionaria da entao Junta de Missoes Estrangeiras da Convencao Batista Brasileira (Hoje JMM). Foram tempos dificeis e problematicos, mas o pais teve oportunidade de reconstruir a sua vida. E claro que estou sendo muito simplista aqui quanto a historia. O governo era comunista e impos uma serie de coisas a populacao, porem, se voce vai a Maputo, a capital, hoje, vai ver que no centro da cidade, nos predios, nas boas casas, em todo lugar, quem mora e o povo de Mocambique, antes, quando os portugueses estavam por la, os mocambicanos estavam confinados, por uma especie de apartheid, a morarem nos suburbios. Com a independencia, o governo distribuiu as casas entre os mocambicanos. E claro que a gente pode discutir muito sobre essa questao e os conceitos de propriedade, porem, quando vou a Maputo e vejo os negros mocambicanos morando nos predios do centro da cidade sinto uma ponta de satisfacao, muito mais agora que estou vivendo na Africa do Sul. Bem, voltar a Mocambique foi uma boa e gostosa aventura. lsso mesmo, aventura.

Eramos 4. Eu (brasileiro), Katrin (Suica), Elke (Sul Africana) e Christoffer (Alemao). Decidimos ir a Mocambique conhecer a historia, o povo e as belezas do pais. Eu fui como interprete. Saimos de Johannesburg de trem em direcao a Maputo, antes, porem, tive a oportunidade de passar uma noite na residencia dos amigos Georg e Renate Meyer amigos de Africa e Brasil . A viagem de trem foi excelente e divertida, os tres estavam em uma expectativa sobre aquilo que veriam em Mocambique, eu estava convencido de que ja tinha visto o suficiente de Mocambique e nada poderia me impressionar mais. Tendo estado em Maputo e regiao em 1994 logo apos o termino da guerra civil, tinha a ideia de que encontraria as coisas no mesmo lugar. Estava completamente enganado.

Maputo parece muito mais viva agora. 0 povo de Mocambique segue com muita esperanca. Apos uma guerra civil de 17 anos o povo agora esta trabalhando duro no desenvolvimento do pais, e claro que ainda ha um longo e penoso caminho a seguir, porem, e muito gostoso ver o orgulho do povo pela terra, pelo pais, pela cultura e pela alegria de se ter a oportunidade de reconstruir a vida. Me emocionei mais uma vez com essa gente simples. Em Maputo ficamos hospedados na casa do Isaias (Mocambicano) e a Quezia (Brasileira), ja os conhecia de Sao Paulo, eles estudaram e se formaram na Faculdade Teologica Batista de Sao Paulo. Fomos muito bem recebidos. Nao tinhamos qualquer plano estrtategico para visitar Mocambique, so tinhamos a ideia de que nao poderiamos gastar muito dinheiro la porque nao o tinhamos para gastar, por isso mesmo levamos conosco barracas e fomos acampar em diversos lugares.

De Maputo fomos a uma peninsula chamada Macaneta. Um amigo nosso que tambem estuda na Universidade na Africa do Sul nos levou ate la de carro. Passamos tres dias em Macaneta. Armamos as barracas e desfrutamos de um lugar que so pode ser chamado de "paraiso". Praias desertas, vegetacao intensa e um mar de encher os olhos. Andamos por todos os lados mantendo contato com o povo da localidade. Gente muito simples e sofrida. As criancas vinham logo correndo e ficavam ao redor conversando. Cortou o nosso coracao o fato de que aqueles meninos e meninas nao pediam dinheiro nem comida, a unica coisa que pediam eram lapis e cadernos para poderem usar na escola. Macaneta foi uma experiencia muito rica para nos como um primeiro contato com a natureza de Mocambique, estava comecando a descobrir uma nova Mocambique que devera explodir em turismo em breve.

Resolvemos seguir em frente em nossa viagem atraves da costa indo do Sul para o Norte. Logo descobrimos que para sairmos de Macaneta somente havia um meio de transporte: um trator que nos levaria de onde estavamos ate a balsa que faria a travessia do Rio. Para desespero nosso descobrimos que o trator nao estava operando naqueles dias e que teriamos que fazer o trajeto a pe como qualquer outro morador estava fazendo, tudo bem, nao seria problema nenhum andar, mas entao, descobrimos que isso significava andar 10 kilometros. Fazer o que? Saimos com nossas mochilas nas costas andando ate a balsa. Ate que nao foi muita coisa, mas nos estavamos realmente cansados. Para complicar comecou a chover. Chegamos ate a estrada onde tentariamos pegar um transporte para Macia ou Xai-xai, chegando a um desses lugares iria procurar o pessoal da igreja que tinha trabalhado anteriormente e la poderiamos armar as barracas e passar a noite, o problema e que o transporte nao veio por quase duas horas e ja eram 4 horas da tarde. Decidimos entao voltar a Maputo. Em Mocambique nem sempre se consegue onibus, o que vier esta bem vindo, pois bem, o que veio foi um caminhao cheio de gente em cima, resolvemos pegar esse mesmo, foi uma viagem de 1 hora em cima de um caminhao aberto pegando uma boa chuva.

De volta a Maputo nos instalamos de novo no apartamento do casal Isaias e Quesia, eles nao estavam la, estavam na Africa do Sul participando da Conferencia da AD 2000, mas fizeram a gentileza de deixar uma copia da chave do apartamento conosco. Fomos ao Mercado Central e compramos comida para um bom jantar, eu fiquei encarregado de fazer um gostoso peixe frito. Peixe e uma das especialidades de Mocambique.

No dia seguinte saimos de manha procurando um meio de chegarmos a Xai-Xai (aproximadamente 3 horas de Maputo). Achamos um mini-bus que estava indo para ]a, pegamos e chegamos la a tardinha. Fomos para a area de campismo, levantamos as barracas e fomos apreciar as belezas da natureza naquele lugar. Passamos dois dias na Praia de Xai-Xai ate que decidimos ir mais ao norte para conhecermos outros lugares. Tentamos pegar um onibus para Maxixe, ou qualquer outro transporte, durante uma manha inteira. Estavamos na beira da estrada aguardando qualquer conducao. Por fim encostou um onibus com destino a Beira (Beira fica a dois dias de viagem de Maputo), conversei com o motorista e ele disse que poderia nos levar ate Maxixe, porem, havia um problema: o onibus estava cheio e nao havia lugar direito nem para ficar em pe. Decidimos nos aventurar, seria melhor fazer em pe as 4 horas de viagem do que ficar em pe aguardando outra conducao. Foi uma longa viagem e muito cansativa, porem, ficamos sempre imaginando como e que alguns no onibus estavam dispostos a fazer toda a viagem ate Beira em pe, sao dois dias de viagem.

Em Maxixe encontramos logo o acampamento que fica pertinho da parada do onibus. Esse acampamento fica num local muito previlegiado, diretamente de frente para o mar, das barracas podiamos ver as ondas e o ceu estrelado. 0 nascer do sol era um espetaculo a parte, era so abrir a barraca e, la de dentro mesmo, esperar o sol 'subir" em toda a sua majestade. De Maxixe a gente ve a cidade de Inhambane que fica do outro lado da bahia (uma especie de Rio e Niteroi). No dia seguinte fomos ate Inhambane pelo mar, a travessia e feita atraves de jangada. Logo, fizemos amizade com os jangadeiros com os quais nos divertimos muito: Joao, Felipe e Manuel, pessoas simples que conhecem muito bem os segredos do mar. Joao e africano tradicional, tem 2 esposas e tres filhos, agora esta querendo uma outra esposa, so que ele quer se casar com uma mulher estrangeira e branca (ainda se pratica muito a poligamia na Africa). Perguntei a ele se ele conhece alguma mulher estrangeira branca que seja casada com mocambicano neste regime de poligamia, ele me garantiu que conhece 3 casos. Filipe tambem e casado (uma esposa) e tem 9 filhos, ja Manuel e casado com uma esposa e tem 2 filhos. Eles nos levaram ate Inhambane na jangada, uma experiencia muito gostosa, nesta altura ja haviamos feito amizades com uma familia de italianos e tambem haviamos encontrado um amigo da Universidade, todos juntos fomos na travessia da bahia com agua muito limpa e cheio de jangadas com suas grandes velas. Aprendemos muito com a familia italiana: pai, mae e duas filhas. 0 pai trabalha numa organizacao de ajuda a vitimas de guerras. Ele nos disse que as guerras deixam um rastro de destruicao que duram por centenas de anos atraves das minas, o mais cruel e que existem minas que sao construidas exclusivamente para explodir nas maos de criancas, essas minas tem o formato de borboletas e parecem um brinquedo inocente de plastico, a crianca pega aquele "brinquedo" e depois de algum tempo aquilo explode matando a crianca ou deixando-a sem partes do corpo. Crueldade. Mocambique tem ainda cerca de um milhao de minas plantadas em suas terras, Angola tem cerca de dez milhoes.

Ficamos em Maxixe por um bom tempo, em um outro dia resolvemos visitar uma ilha de nome "Lenga-Lenga", esse lugar me deixou maravilhado. Mais uma vez contratamos os servicos dos amigos jangadeiros para nos levarem ate la. Infelizmente nao havia qualquer vento no mar e eles trabalharam duro remando por 4 horas. Valeu a pena ter ido ate Lenga-Lenga, o cenario e paradisiaco, a agua limpida como nunca vi e os coqueiros cheios de cocos ao alcance da nossa mao, eu mesmo apanhei cocos e os abri para saborear a boa agua-de-coco. A ilha tem alguns habitantes, escola para criancas, etc. Um bom lugar para se morar, porem, nao ha energia eletrica ou mercados disponiveis, porem, ha uma comunidade simpatica e alegre. A volta foi completamente diferente da ida, nao gastamos 4 horas, mas desta vez, 2 horas. 0 vento estava forte e logo ficamos com muito medo do balanco da jangada nas aguas, os marinheiros, porem, estavam bem descansados e despreocupados. Foi uma boa aventura.

Ainda tentamos ir a uma outra praia de nome Tofo, na verdade fomos ate ]a, mas, infelizmente, a chuva nao nos deixou apreciar muito, foi ]a em Tofo, em meio a lindos corais, que cortei meu pe, mas nao foi nada serio. Apos Tofo e a chuva que comecou e nao queria parar mais, resolvemos que seria hora de voltar a Maputo e de la voltar a Africa do Sul. Fomos para Maputo direto de Maxixe (8 horas de viagem). Ficamos de novo hospedados com Isaias e Quesia que ja tinham retornado, visitamos alguns outros amigos em Maputo, fomos ao mercado, compramos castanha de caju e outras lembrancas. Depois, pegamos um confortavel onibus para Johannesburg, la, visitamos Georg e Renate de novo. Georg tinha la uma caixa cheias de coisas boas que havia chegado do Brasil atraves do Enoque Faria (membro da lgreja do Cambui). 0 Enoque havia estado na Africa do Sul para tambem participar da conferencia da AD 2000. 0 pessoal da igreja, entao, aproveitou para mandar algumas boas guloseimas como chocolate, feijao preto e muitas revistas no bom Portugues. Dormimos na casa de uma amiga da Elke e no dia seguinte voltamos de carro, para casa em Pietermaritzburg, foi uma aventura na qual aprendemos muito com o povo de Mocambique, gente que tem perseverado na luta para vencer. Ir a Mocambique nao foi caro, nos custou mais ou menos o equivalente a R$ 250,00 incluindo tudo (passagem de trem, gasolina, refeicoes, transportes em Mocambique, acampamento, comida e etc). Verdade e que economizamos o maximo em tudo. Fico feliz por mais essa oportunidade de aprender e viver com o povo mocambicano e as paisagens naturais de Mocambique. Quando puder, vou voltar la.

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Alverson de Souza
Setembro 2001