A gente nunca sabe como e que as coisas comecam, algumas dessas coisas simplesmente acontecem.. Por exemplo, comecei a ficar nervoso quanto a viagem que faria quando justamente fiquei pensando como e que eu me meti nisso tudo. Descobri onde tudo comecou, exatamente ha alguns meses quando soube que poderia ir ao Brasil via Europa sem ter um custo muito diferente se fosse direto. Naquele dia quando estava pensando essas coisas faziam 9 meses que estava na Africa do Sul. Pensanso bem acho que 9 meses e um periodo bem sugestivo: lembra gestacao, nascimento, realizacoes... Pois bem, vim para a Africa do Sul ficar gravido de coisas boas que podem acontecer em minha vida. Essa e uma boa maneira de um homem ficar gravido. Pude relembrar que foi um ano duro de muito trabalho, muita coisa aconteceu, muito stress, muitas gargalhadas e amizades. Foi nesse ambiente que fiquei gravido de Europa, o chamado Velho Mundo. Encantado como sou pela Historia da Igreja, fiquei logo agitado com a possibilidade de ver lugares importantes para essa historia, ver de perto o cenario de erros e acertos da historia do homem enquanto cristao. Nao e uma historia morta, basta dar uma olhada na nossa historia crista hoje e ver que nao somos nada diferentes de Bispos, Papas, sacerdotes, leigos, povo e igreja dos remotos tempos, talvez hoje esse pessoal todo tenha outros nomes... a historia continua. Dinheiro para a empreitada, nao tinha, coragem para pedir, as vezes tenho, fe, tento ter, acreditar na ajuda de Deus atraves dos amigos, acredito muito. A verdade e que os amigos me ajudaram a realizar esse e muitos outros planos. So tenho que agradecer a eles, nao estou falando de ajuda financeira somente, ela e importante e ela que compra passagem, noites em albergues, comida, mas falo tambem dos amigos que silenciosamente torcem por mim e no fundo do peito fazem uma oracao a Deus pedindo forcas e condicoes para que eu realize essas peripecias. Obrigado a todos.
Pois e, com todos esses pensamentos em mente sai na segunda-feira (02 de dezembro de 1996). Se tive medo? Sim, seria muito falso se dissesse que nao. Tive medo de andar sozinho nos trens, de encontrar a velha intolerancia, de encontrar gente nao bem intencionada pelo caminho, de ficar doente, de morrer, de ficar sem dinheiro no meio do caminho, de ser assaltado e levarem todo meu dinheiro, passaporte e ticket de trem, medo de aviao (morro de medo deles). Pode acreditar, eu tive muito medo. Mas, se me deixasse dominar pelo medo nao iria a lugar nenhum, nao saia de casa nem para comprar pao, quanto mais para ir a Europa sozinho. Mesmo com medo, mas com espirito de aventura e com a ajuda de Deus (voce pensou que nao fosse mencionar o nome de Deus?) tudo correu muito bem. So tive um contratempo que foi perder uma mochila com alguns pertences. A verdade e que tudo que vi tem me ajudado muito a entender coisas que antes estavam um pouco que obscuras em minha mente, mas ainda ha muito que aprender.
Avistei a Alemanha ainda cedo de manha de dentro do aviao. Engracado como muitos pensamentos vem a nossa mente. Inevitavelmente pensei na Segunda Guerra Mundial e em toda a situacao que o pais e o mundo viveu naquela epoca. Confesso que fiquei muito apreensivo, me senti como se estivesse desembarcando na Alemanha do tempo do nazismo. Pura invencao da minha mente. Fui muito bem recebido no pais, no posto da imigracao no aeroporto fizeram as minimas perguntas e carimbaram o passaporte, nem acreditei quando o guarda deu um sorriso e disse: "bem vindo a Europa". Comecei a estaranhar mais ainda. Bem, dai pra frente so foi eu e minha enorme mochila nas costas tentando descobri que trem tomar, que direcao seguir e quem podia falar Ingles.
De Frankfurt fui para Heidelberg e la encontrei Dorotheia e Dieter. Estudamos juntos na Africa do Sul. Foi muito bom reve-los e logo fomos conhecer a cidade e seus misterios. Foi legal visitar uma igreja que no tempo da Reforma Protestante foi literalmente dividida: um muro no meio da igreja definia um lado para o culto catolico e outro para o protestante. Alias, igreja e o que nao faltou para visitar na Europa. Na Alemanha e na Suica visitei muitas igrejas anteriores ao periodo de Reforma. O interessante e que agora o povo esta bem interessado na historia e em muitas igrejas vi um cenario tipico: as paredes estao sendo restauradas e se tenta hoje resgatar as pinturas antigas dessas paredes. Quando o processo de reforma chegou muitos correram e passaram tinta em cima das velhas pinturas catolicas, hoje, estao querendo resgatar essas pinturas como um grande valor historico. Em Heidelberg tambem visitei um antigo lugar onde viveu parte da tribo Celta. Foi interessante ver ainda preservados predios tao antigos.
Visitar a cidade de Basileia foi muito gostoso. La encontrei os familiares de um outro amigo que havia deixado na Africa do Sul. Andei por toda a cidade antiga ainda com predios do periodo medieval. Visitei o tumulo de Erasmo de Rotterda e tambem a Escola de Teologia onde Karl Barth lecionou. Tive oportunidade de conversar com muita gente na Universidade sobre o Brasil. Descobri que na Escola de Teologia da Universidade ha um centro de estudo sobre o Brasil, principalmente sobre a Teologia da Libertacao, alias, o teologo brasileiro Leonardo Boff vai estar ensinando la durante o segundo semestre deste ano. Tive a oportunidade de encontrar um doutorando que esta escrevendo tese sobre a teologia brasileira, ele ja passou alguns anos pesquisando no Brasil e fala Portugues muito bem. A impressao que tive da Suica atraves da cidade de basileia foi a melhor possivel. Povo educado e prestativo quando solicitado (nao tive nenhum problema para obter informacoes nas ruas).
A Franca foi um paradoxo. Tive momentos muito agradaveis e tambem momentos muito chatos. Os agradaveis ficaram por conta da visita que fiz a Cluny, Taize e Avingnon. Essas tres cidades carregam uma grande importancia para quem estuda a Historia da Igreja. Em Cluny pude ver as ruinas do antigo mosteiro, alias, ele nao e so antigo como e um dos primeiro mosteiro da historia do cristianismo, a rigor foi na cidade de Cluny que o movimento monastico institucionalizado comecou. Foi interessante tocar em paredes sobre as quais eu ja havia ensinado muitas vezes e imaginar tudo que ali aconteceu. Me lembrei um pouco de Bernard de Clarivaux e tambem da trama contida no livro "O Nome da Rosa" de Umberto Eco. Hoje em Cluny ja nao ha mais um mosteiro, mas na cidade vizinha, Taize, encontrei um mosteiro ecumenico. Isso mesmo, fiquei admirado de ver como monges (la eles sao chamados de irmaos) convivem entre si mesmo vindo de diferentes denominacoes e realidades. Parece que em algum lugar do mundo os cristaos conseguem viver unidos. Ate encontrei dois brasileiros la: um catolico e um protestante. Fiquei tres dias em Taize participando das atividades inspirativas. Acho que Taize tem um estilo de espiritualidade bem adequada ao europeu: silencio, musica que e um misto de tradicao crista com simplicidade, bem, eu nao sei explicar o que realmente e, a verdade e que eles conseguem reunir ate sete mil jovens por semana no verao para experimentar essa espiritualidade e tambem reunem cem mil jovens todos os anos num encontro que chamam de "Encontro Europeu". Isso e alguma coisa que nao se pode ignorar, sao muitos os jovens que estao sendo atingidos pela simplicidade monastica de Taize. Pode se dizer que a Europa enfrenta uma grande indiferenca para com o cristianismo, essa nao e a realidade em Taize. Gostei!
Em Avingnon conheci o explendoroso Palacio Papal onde 7 papas reinaram. Isso e importante porque retrata um periodo da historia da Igreja em que a sede do Cristianismo nao foi Roma ou Constantinopla, foi um periodo de quase 100 anos. O Palacio e o centro do turismo na cidade e ele realmente impressiona por sua majestade e imponencia.
Infelizmente aquilo que ouvi falar sobre os franceses e verdade. Foi la que encontrei as pessoas mais ignorantes e mau humoradas. Por causa disso, resolvi nao ir a Paris, dizem que e muito bonita, mas perdeu o encanto para mim so de pensar em ser recebido com tanta ignorancia. Certamente muita gente deve ter tido uma experiencia diferente, a minha nao foi agradavel. Eles nao tem boa vontade de dar informacoes e acham que o Frances e a lingua mais perfeita do mundo, se voce nao fala o Frances, entao, e considerado uma pobre criatura. Realmente ha gente com os pensamentos mais esquisitos, de uma Alemanha que tentou fazer a purificacao da raca a uma Franca que tenta fazer a purificacao da lingua.
Viajei umas 10 horas de Cluny ate Roma, foi uma viagem longa, mas agradavel. Os trens europeus sao muito confortaveis, viajei a noite em uma cabine com seis camas. Assim que entrei no trem o bilheteiro, um italiano, pegou meu ticket e passaporte para apresenta-lo na fronteira quando o trem la chegasse de madrugada, quando ele viu que eu era brasileiro comecou a falar Portugues com muita fluencia. Logo descobri que ele ja havia estado no Brasil cinco vezes e nao quer saber de outro lugar para passar as ferias, disse que quando se aposentar vai mudar para o Brasil por causa do povo brasileiro.
Bem, Roma e um espetaculo para quem quer estudar historia, a cada esquina voce encontra um predio com significado historico e muitas vezes construido ainda no primeiro seculo ou no tempo do imperio romano. Normalmente, quando chegava a uma cidade, providenciava o mapa da cidade, marcava os pontos importantes a serem vistos e entao saia andando, metro e onibus e muito caro e aproveitei para fazer algum exercicio, tambem foi uma boa estrategia para conhecer o povo, pedir informacoes nas ruas, ver o dia-a-dia nao turistico das cidades. Sim, eu fui ao Vaticano. Fiquei tao abismado com a arquitetura, arte, beleza, grandiosidade, impacto historico e mistico que resolvi gastar dois dias dentro do Vaticano. Nao, eu nao vi o Papa, realmente nao tive muito interesse de ver apenas um ponto branco numa distante janela de um predio. O monge brasileiro que encontrei em Taize me disse que eu dificilmente veria o Papa porque ou ele estaria viajando ou estaria no hospital. Nao sei onde ele estava, mas sei que a forca do poder papal na historia e surpreendente, toda Roma esta cheia dos simbolos papais e voce tem a impressao de que o proprio Papa vai aparecer de repente na virada de uma esquina como acontece no filme: "As Sandalias do Pescador". Roma e uma cidade realmente antiga com ruas pequenas, transito confuso e gente simpatica, bem, a gente encontra muitos romanos ignorantes no melhor estilo italiano, mas nao se assuste, de uns gritos com ele e tudo vai ficar resolvido no melhor espirito latino. Veja bem, me senti melhor com os italianos ignorantes em Roma do que com os educados franceses. De Roma fui para Assis, cidade de nascimento e acao de Sao Francisco de Assis. Uma cidade que preserva todas as caracteristicas dos tempos da Idade Media. Assis tem sua importancia dentro da historia, creio que Francisco de Assis tentou uma especie de Reforma na Igreja muito antes de Lutero, alias, muitos outros tentaram. Tive a impressao que Sao Francisco de Assis ficaria muito triste por ver a ordem franciscana hoje, na verdade ele chegou a ver como a ordem ja estava sendo desviada dos principios por ele fundamentados. Se voce quer saber mais sobre o trabalho e propostas de Sao Francisco de Assis, entao, eu recomendo o filme: "Francesco" (procure nas locadouras), para quem esta no Rio de Janeiro voce pode assistir a pelo menos duas pecas no teatro sobre Sao Francisco, uma delas e um musical, alias, Clemir me disse que o ator de uma dessas pecas ficou tao apaixonado por toda historia de Sao Francisco que resolveu ir morar em Assis. Ja estou ate vendo que daqui a pouco alguns vao estar me chamando de idolatra...
Todo mundo me pergunta qual foi a cidade que mais gostei. Bem, nao acredito que se possa ir a um lugar como a Europa e sair de la dizendo que nao gostou de nada ou que nao encontrou nada de interessante numa cidade, alias, nao somente na Europa mas em qualquer lugar do mundo. Visitei muitas cidades onde vi coisas interessantes ou coisas que existem so para o turista ver. A verdade e que quando cheguei a Barcelona vi que eu realmente iria gostar daquela cidade. Peguei o trem de Avingnon para Barcelona e logo fiz amizade com um grupo de "mochileiros" que como eu estava fazendo a Europa: dois da Nova Zelandia, uma americana e um suico que estuda teologia na Basileia e estava indo a Barcelona encontrar alguns amigos. Ja haviamos ouvido muito sobre a cidade atraves de outros que haviam estado la. Chegamos a noite e fomos procurar um albergue, nao foi problema, todo mundo dava informacoes, apontava, perguntava de onde eramos e se mostrava prestativo. Barcelona foi realmente um show. A foto do jogador Ronaldinho estava espalhado por todos os cantos. A rua principal de pedestres e La Rambla. Gente andando 24 horas por dia e onde tudo acontece. No domingo pela manha sai do albergue com o intuito de conhecer a parte antiga da cidade: o bairro gotico. O que vi foram as familias indo para a missa e depois passeando nas ruas de Barcelona. Parecia uma grande festa da familia, os mais variados estilos e grupos cantando pela rua, corais, bonecos gigantes que jogavam balas pela boca e faziam a festa das criancas, um quarteto de cordas e nao faltou um conjunto de peruanos que foi presenca marcante em quase todas as cidades que passei, eles estavam em todos os lugares. O mais importante para mim em Barcelona foi esse encontro com o povo, apenas saia nas ruas e participava da alegria do povo. Foi muito interessante. Alem disso, a cidade e bonita com atracoes muito interessantes como a Igreja da Sagrada Familia projetada por Gaudi, este artista tambem projetou o exotico Parque Guel, por falar em artista nao se pode deixar de mencionar o Museu de Pablo Picasso.
Por causa de uma greve de trens que estava prevista na Espanha, Franca e Italia, resolvi deixar Barcelona um dia mais cedo do que havia previsto. Meu destino seria Paris, muito embora nao estivesse muito animado de parar na Franca de novo, mas pensei que todo mundo me acharia um louco se fosse na Franca e nao desse uma parada em Paris. Porem, resolvi esquecer Paris definitivamente quando foi preciso uma troca de trem. Estava junto com um grupo de jovens canadenses no qual tinha feito amizade. No caminho de uma plataforma para outra fui parado por um guarda frances, nao e preciso dizer que fui parado porque era o unico negro do grupo, uma vez que ele nao parou mais ninguem. Tivemos o seguinte dialogo: o guarda falou alguma coisa em Frances. Respondi para ele em Ingles: "Desculpe-me, nao entendo Frances". O Guarda respondeu-me em Ingles: "Mas eu falo e entendo Frances porque eu sou Frances" e entao falou mais grosso: "Passaporte, por favor". Dei meu passaporte e ele ficou la folheando folha por folha ate se cansar e entao me entregou o passaporte sem dizer mais nada. Nao foi preciso dizer mais nada, ja estava decidido a nao parar em Paris, decidi ir para Londres. No trem encontrei um brasileiro que estava indo para Amsterdan, estava vindo de Portugal, ele adorou Lisboa. Tambem ja havia estado em Londres e me deu muito boas dicas. Chegamos em Paris e fomos tentar descobri como fariamos para chegar, eu em Londres e ele em Amsterdan. Descobrimos que teriamos que ir para uma outra estacao de onde sai os trens para estas cidades. Pegamos o metro e continuamos nossa aventura pelos transportes de Paris. Na outra estacao descobri que poderia pegar um trem que sairia em 1 hora, ja o meu amigo brasileiro so poderia pegar o trem para Amsterdan as 10 horas da noite (e eram so 8 horas da manha) isso porque o ticket que ele tinha so dava direito a viagens noturnas. Dei meu mapa de Paris para ele (mapa esse que uma americana havia me dado em Barcelona) e segui para Londres, uma longa viagem. Peguei um trem para Cale, umas tres ou quatro horas de Paris. No trem fiz minha refeicao: banana, pao, suco de laranja e tangirina (ou mexerica). Geralmente comprava frutas e outras coisas leves nos supermercados , assim economizava nao comendo em restaurantes. De Cale peguei a Balsa para Dover na Inglaterra, a Balsa e um grande navio que carrega carro, gente, lojas, restaurante, etc. Em Dover peguei um onibus para Londres (mais duas horas de viajem), cheguei a Londres por volta das 19h. Estava chovendo e isso dificultaria muito encontrar um albergue para ficar, foi entao que aceitei a oferta de um agenciador de uma rede de albergues em Londres, ele nasceu na argentina mas muito cedo foi para a Australia com os pais. La no albergue encontrei mais 4 brasileiros. Um estava de volta ao Brasil naquela semana, ja estava a cinco anos em Londres trabalhando para essa rede de albergues. Os outros brasileiros foram tres jovens que estavam tentando ganhar a vida. Uma delas acabava de chegar a Londres, nao sabia falar uma palavra em Ingles, encontrei-a no telefone chorando porque as coisas estavam comecando a ficar dificeis, foi ai que as outras brasileiras tambem apareceram e todo mundo comecou a consolar a que estava chorando, no outro dia ela ja tinha perspectivas de emprego. As outras duas brasileiras eram irmas e uma delas ja estava viajando a 1 ano. Ja havia passado pelo Egito, Israel, Turquia, Grecia, Holanda, Italia e muitos outros lugares, agora estava em Londres onde pretendia aprender Ingles depois que conseguisse um emprego. Gostei muito de Londres, cidade grande, agitada, divertida e com pessoas estranhas nas ruas que nao estao nem ai com o que vao falar de suas roupas ou da cara delas. Foi tambem em Londres que vi uma das cenas mais bobas quanto a fazer coisas so para turistas ver (ou para Ingles ver): a troca da quarda real. Diverti-me mais com o povo que se aglomerava em frente ao Palacio Real do que com a troca da guarda em si mesma, muita coisa para fazer o turista feliz, mas pouca coisa realmente relevante e real. Uma visita emocionante foi a que fiz a Abadia de Westminster, a catedral anglicana onde sao coroados os reis e rainhas ingleses, na verdade fiquei pensando se seria realmente uma igreja ou um cemiterio, ha muita gente enterrada la, alias, um dos primeiros tumulos que se encontra logo na entrada e o do missionario David Linvisgnton, o missionario Ingles que deu a sua vida pela Africa, ate hoje o nome de Linvingston e respeitado no continente africano. Na Abadia tive oportunidade de ter uma aula de historia da reforma na Inglaterra, foi uma oportunidade unica. Gostaria de ter estado mais tempo em Londres, mas, infelizmente nao tinha mais dinheiro para ficar no albergue e me alimentar, assim que sai da Abadia liguei para minha igreja (Igreja Batista do Cambui - Campinas - SP) e falei com a Clair que e a secretaria da Igreja e de muita boa vontade controla parte da minha vida no Brasil. Pedi a ela para enviar algum dinheiro para Liverpool atraves da companhia West Union que faz transferencia de dinheiro de maneira rapida. Clair disse que veria quanto eu tinha na conta e mandaria algum dinheiro. Fui entao para Liverpool, nao por causa do dinheiro que deveria chegar la, mas, principalmente por causa da expectativa de encontrar-me com a familia Redondo (Marcio, Marilza, Esther e Rute). Marcio foi Diretor da Faculdade Teologica Batista de Campinas e toda a familia e membro da Igreja do Cambui. Foi uma alegria chegar em Liverpool e encontrar rostos tao conhecidos, uma cama bem quentinha so pra mim, alimentacao substanciosa e muita oportunidade de conversar sobre os mais diferentes assuntos. Ja era a semana do Natal epoca bem propicia a se estar com uma familia. A cidade de Liverpool e muito hospitaleira, um povo que gosta de ajudar e fazer amigos. A familia Redondo frequenta uma igreja muito gostosa com gente muito amiga. E verdade: o povo em Liverpool e fanatico por futebol, na Igreja em que a Familia Redondo frequenta ha 6 times de futebol. Foi muito bom estar em Liverpool com eles, alias, foi la que pela primeira vez tive oportunidade de ver a neve caindo, foi logo no dia 26 de dezembro, saimos a rua para sentir o gostinho da neve no rosto, estava um frio de ‘'rachar a alma'‘. Ainda fomos ao Pais de Gales conhecer alguns castelos. Deixei Liverpool numa sexta-feira a noite em direcao a Noruega.
Cheguei a pensar em nao ir a Noruega, pais distante e frio, mas nao poderia deixar de ir ate la, afinal, um dos meus grandes amigos na universidade na Africa do Sul estava la me aguardando para passarmos o ano novo juntos. Um bom amigo, Oyvind Monstad. Quando cheguei a Africa foi ele que me ajudou com tudo que precisava, foi ele que passou muitas horas lendo e corrigindo meus trabalhos academicos, era com ele que tinha as discussoes teologicas mais acirradas, enfim, foi ele que se mostrou um amigo bem proximo. Bem, resolvi me aventurar no complicado caminho para a Noruega. Ir de Balsa de Newcastle, Inglaterra, para Berger, Noruega, estava dificil por causa da epoca do ano e alem disso de Berger ainda teria que pegar um trem por mais 8 horas. Resolvi ir pelo continente. Fiz o trajeto mais doido de toda a viagem: Liverpool - Londres - Bruxelas (Belgica) - Amsterdan (Holanda) - Copenhague (Dinamarca) - Gottemberg (Suecia) - Oslo (Noruega). Sai de Liverpool na sexta a noite e so cheguei em Oslo no domingo a noite. Foi nesse trajeto que tive a oportunidade de viajar no famoso Eurotunel que vai da Inglaterra a Franca por debaixo do mar. Na verdade nao se sente nada, voce so sabe que esta no eurotunel porque e avisado que o trem esta prestes a "entrar no mar". De qualquer forma e uma sensacao gostosa e inquietante saber que o mar esta sobre voce, no comeco da medo. O importante mesmo e que se faz uma viagem de Londres ate Bruxelas em 3 horas.
Chegando na Noruega estava acabado de cansado. Fui telefonar para meu amigo e por alguma distracao esqueci minha mochila pequena em algum lugar, na verdade nao sei se esqueci ou fui roubado, so sei que ate o momento que telefonei para ele estava com a mochila porque foi de dentro dela que tirei o numero do telefone, a partir dai nao me lembro de mais nada, nao estava com disposicao para me preocupar ou reclamar pela perda de todos os objetos de uso pessoal, maquina fotografica, cds e alguns livros. Meu amigo ficou mais preocupado que eu, rodamos toda a estacao ferroviaria e nao achamos mais nada, o jeito foi ir para casa ter uma boa noite de sono, nao sem antes conversarmos por longo tempo. No dia seguinte conheci melhor a casa em que estava hospedado. Uma casa grande que abriga pessoas com disturbios mentais (excepcionais). Hoje naquela casa moram 3 pessoas com problemas mentais. Ha uma equipe que mora tambem na casa ajudando e cuidando dessas pessoas, mas o objetivo e fazer com que eles se sintam num lar, nao e uma instituicao, mas sim um lar onde eles recebem amor, atencao, participam das refeicoes juntos, saem para passear, vao a escola e tem uma variedade de atividades em familia. Fiquei comovido com o que vi e pude entender muito bem porque Oyvind sabe dar tanta atencao e amor as pessoas, ele aprendeu la. Como visitante nao deveria somente ficar olhando o que acontecia, logo fui designado para ajudar, lavar pratos, brincar com o grupo, levar um ou outro para passear, fazer compras, etc. Nao fiz muito turismo em Oslo, mas o que vi e participei me ajudou muito a compreender e a ser mais tolerante com os diversos tipos de pessoas, aprendi muito. Preparamos um jantar para a vespera de ano novo. Recebemos umas 40 pessoas amigas e tambem muitos excepcionais vindos de uma instituicao proxima. Foi a festa de ano novo mais diferente que ja passei na minha vida, cantamos em volta de uma grande arvore de natal, participamos de um culto na capela, tivemos um jantar farto e olhos que brilhavam de alegria por estarem juntos com outros, saimos a rua no meio de muito gelo para vermos os fogos que anunciavam um novo ano. Foi gostoso, foi cristao. Tenho saudades daqueles poucos dias que me ensinaram muito. Mais uma vez tenho que agradecer ao Oyvind pela oportunidade que me proporcionou.
Da Noruega fui direto para a Alemanha, de trem. Fiquei surpreso em ver como os trens entram dentro da balsa para a travessia no mar. O trem entra dentro do navio e e levado ate a outra margem. O trajeto era Oslo - Hamburgo. Cheguei a Hamburgo a tarde e fui procurar lugar para ficar, fiz amizade com uma americana que mora na Alemanha e estava visitando Hamburgo. Achamos um excelente albergue por um preco muito bom. Hamburgo e uma cidade grande com um grande porto. As coisas sao um pouco confusas ao redor da estacao, muitos problemas com drogados que fazem ponto na estacao. Andei pela cidade e foi la que experimentei o dia mais frio: 15 graus negativos. E interessante ver como lagos, mar e outras areas ficam congelados e como as pessoas aproveitam para patinar no gelo. Uma outra coisa que vi na Europa com relacao ao frio e que as pessoas nao ficam trancadas em casa, elas saem a rua, levam seus bebes e se divertem. De Hamburgo resolvi ir a cidade de Colonia visitar a catedral que e a mais alta da Europa. Realmente e um esplendor, voce chega a se assustar quando sai da estacao de trem e ve aquela imensidao ao lado, fantastico. Pretendia ficar em Colonia pelo menos dois dias, mas chegando la comecei a sentir alguma coisa errada com minha garganta e percebi que ia ficar doente. Fui a uma farmacia e perguntei por algum remedio que poderia me ajudar, a atendente foi muito atenciosa e me deu umas pastilhas que me ajudaram muito, recomendou que eu fosse para casa e evitasse a friagem da noite, ela nao sabia que estava muito longe de casa, ainda nao estava instalado num albergue e que queria correr o risco e ver a cidade a noite. Bem, no fim resolvi seguir os conselhos dela. Fui para a estacao e telefonei para Dorotheia, aquela amiga que mora em Heidelberg. Perguntei para ela se poderia ir para la de novo porque se tivesse qualquer problema de saude pelo menos estaria com amigos. Ja estava sentindo dor de cabeca e um pouco de "moleza" no corpo. Dorotheia disse que era para eu ir imediatamente, ela disse que eu estava era cansado e precisava de um bom descanso. Depois de umas 4 horas andando por Colonia, peguei o trem e fui para Heidelberg de novo, foram duas horas e meia de viagem. Chegando em Heidelberg, Dorotheia estava me esperando na estacao e fomos para a casa do Dieter, ele estava preparando um jantar para nos. Era sexta-feira, no domingo voltaria para o Brasil. No sabado ja estava bem melhor, resolvemos visitar uma cidade proxima: Worm. Nesta cidade aconteceu uma dieta da igreja quando pela primeira vez foi usado o termo protestante. Lutero esteve la nessa Dieta. A cidade inclusive tem um "turismo luterano" que traca todos os lugares importantes para a historia da Igreja. O que mais nos impressionou nessa cidade foi a visita que fizemos a uma Sinagoga. A cidade tem (ou tinha) um considerado numero de Judeus. E interessante notar que durante o periodo das Cruzadas a cidade era caminho para Jerusalem, pois bem, cristaos "bem intencionados" entravam na cidade e matavam os judeus que encontravam pela frente, tinham o objetivo de ja iniciar o trabalho que deveria ser feito em Jerusalem. Foi outro momento emocionante de contato com a historia. No domingo pela manha sai bem cedo para Frankfurt onde deveria pegar o voo para o Brasil. O aeroporto de Frankfurt e imenso, depois de quebrar a cabeca andando para la e pra ca consegui encontrar os guiches da Varig. Para minha surpresa o voo seria pela a Lufthansa, um voo em conjunto com a Varig. Esperamos dentro do aviao exatamente 2h30 ate que o aviao pudesse decolar, o motivo: neve. A aerovave estava congelada. Depois de passar por um processo de descongelamento decolamos e acima das nuvens o sol estava brilhando bonito. Depois de umas 2 horas de voo pudemos ver la de cima o contorno de Portugal e Espanha, dai pra frente foi so entrar no oceano e esperar pela "terra brasilis". Estava voltando pra casa.
Apos 12 horas de viagem finalmente cheguei ao Brasil. No aeroporto de Sao Paulo alguns amigos estavam la esperando por mim, foi muito bom reencontrar todos eles. Dai pra frente foi so festa e reencontros. Fui para Campinas, andei pelas ruas, visitei um monte de gente. A Clair preparou uma agenda de lugares onde deveria almocar e jantar a cada dia. Nao foi dificil engordar de novo, cheguei ao Brasil consideravelmente magro, duas semanas foi o suficiente para me deixar gordo. De Campinas fui para o Rio. Foi muito bom rever meus familiares, estar com eles, contar historias, ouvir um tanto outro de historias. No Rio visitei muitos amigos e lugares, so ao Corcovado eu fui duas vezes. Isso porque acompanhei um amigo sul africano que estava em turismo no Rio e depois tres amigos alemaes que tambem passaram pelo Rio. Foi muito bom estar com as pessoas que gosto, foi realmente reanimador, mas parece que tudo passa muito rapido. Cheguei ao Brasil no dia 06 de janeiro e voltei a Africa do Sul no dia 21 de fevereiro. Falei na Igreja sobre minhas aventuras na Africa e so tenho a agradecer a maneira carinhosa como as pessoas da minha igreja tem tratado de mim. Foi um tempo de muita oportunidade de conversa a vontade, algumas vezes fiquei simplesmente acordado a noite inteira so conversando. No carnaval recebi a visita do Georg e Renate, sul africanos que estavam fazendo estagio no sul do Brasil, retornaram a Africa do Sul uma semana antes de mim. Infelizmente nao foi possivel visitar a todos. Nao foi possivel visitar almigos fora do eixo Rio-Sao Paulo, nao foi possivel mais do que dar um telefonema para outros amigos, nao foi possivel estar mais do que o periodo de um almoco ou jantar com alguns outros. Gostaria de ter feito mais, mas sou grato pelo que fizeram por mim. Particularmente sou grato a Deus pela Familia Lourenco que me hospedou em Campinas. D. Lourdes, Pita, Eliane, Zinho e Bruno, eles me deixaram bem a vontade como um membro da familia. Foi um bom tempo de descanso e renovar de forcas. No dia 21 de fevereiro voltei a Africa do Sul, engracado como ja estava tambem com saudades dos meus amigos africanos.
Cheguei de volta ao aeroporto em Johannesburg no dia 22 de fevereiro. Peguei um outro voo para Durban e la tive a alegria de encontrar Katrin e Veit, eles estavam me aguardando no aeroporto, de la fomos para casa na cidade de Pietermaritzburg. Chegar foi bom, muita coisa diferente na Residencia Luterana, reformaram uma das casas que agora esta abrigando mais 15 pessoas, tambem ha algumas pessoas novas. Um grupo grande da Tanzania, duas norueguesas, 3 alemaes, 1 de Madagascar, 1 da Etiopia, 1 da Coreia, 1 da Nigeria e muitos outros sul africanos. Brasileiro, continua sendo somente eu.
A primeira coisa que fiz foi jantar com uns amigos e depois dormir. Como sempre levei uns dias para me adaptar ao horario sul africano, uma diferenca de 5 horas a mais em relacao ao Brasil. O unico problema e que acordava de repente durante a noite e nao queria dormir mais. Agora ja estou devidamente adaptado. Arrumei meu quarto, fiz contatos, arrumei meus papeis. Estou de volta, tenho que estudar.